25 de março de 2011


O nascimento da Livraria Limítrofe foi brusco, inesperado e extremamente produtivo. Uma ideia surgida em meio a trânsito, poluição, cansaço e milhares de ruídos de uma louca cidade grande.

Era uma volta para casa como tantas outras, num dia da semana qualquer, após o costumeiro dia de trabalho. Eu já estava acomodado em um dos bancos do fundo do ônibus Terminal Pirituba - era um dia de sorte com certeza, pois nem sempre esse "luxo" é possível, e na maioria das vezes tenho de ir em pé mesmo. Aproveitando a oportunidade, decidi convocar um velho companheiro de viagens, que sempre ajuda a passar o tempo de maneira agradável: o livro.


O livro em questão era o Tratado Secreto de Magia, uma coletânea de diversos autores nacionais. Lembro-me inclusive do conto que lia no momento: Reflexos, da Silvia Andreotti. Acabada a leitura desse texto, pela primeira vez naquela viagem, levantei os olhos e olhei ao redor. Ainda assimilava o clima do conto, imaginando o espelho e a moça no seu reflexo, pensando como o contexto da magia permite criarmos obras ficcionais fantásticas.

Ao olhar pela janela, além do ponto onde o meu meio de transporte permanecia parado para a entrada de mais passageiros, dei de cara com um estabelecimento comercial. Uma livraria, para ser mais preciso. Como eu fazia aquele caminho de segunda a sexta havia alguns anos, a tal livraria (na verdade um sebo) era como uma pessoa conhecida “de vista”: eu sabia que estava sempre ali, mas nunca tive contato com ela pessoalmente. E é aí que está o fato curioso.

Talvez pela influência do ambiente mágico no qual estava imerso naquele momento (costumo fazer isso quando gosto do que estou lendo), a visão da livraria me causou um estalo na mente. E se houvesse uma livraria mágica, que materializasse os gostos literários dos seus clientes? Como as coisas funcionariam, de que maneira os funcionários tratariam as situações completamente imprevisíveis provindas desse ambiente? O que um leitor cheio de imaginação poderia criar nesse cenário?

Iniciou-se então um encadeamento ininterrupto de ideias, tão prolífico que tive de guardar o livro e sacar da mochila um caderninho de notas. O bloquinho de papel simples já havia se tornado um valioso auxiliar no registro de ideias inesperadas, antes que estas se dissipassem no ar. Adotei-o após perder diversas premissas de textos, por deixar para escrevê-las à noite, com mais calma, e simplesmente não lembrar mais delas. E foi assim, através de palavras-chave e observações curtas escritas entre solavancos do coletivo, que esbocei a apresentação do projeto e ideias centrais para três capítulos do livro, até chegar ao ponto perto da minha casa.

Naquela mesma noite, após um banho relaxante e um jantar para repor as energias, a Livraria Limítrofe começou a tomar forma, através de marteladas frenéticas sobre o teclado do computador. Foram ao todo três meses de escrita, período em que o texto “bruto” foi digitado todas as noites, após um longo dia de trabalho. Depois disso, mais algumas semanas foram necessárias para alinhavar as pontas soltas, melhorar a forma e dar voz aos diversos narradores que fazem parte do livro. Devo dizer que foi uma experiência de criação deliciosa, pois eu nunca havia concebido um texto com tanta fluência e naturalidade até então. Esse processo de concepção foi tão interessante, que vou dedicar um outro post a esse assunto.

Bem, é isso. Peço desculpas se me estendi muito ao relatar esta pequena fagulha criativa. Eu precisava compartilhar isso com vocês, pois a Livraria Limítrofe é um filho do qual me orgulho muito, e que tem me dado muitas alegrias, pela sua natureza e pelo leque de possibilidades que permite.

Até a próxima!




1 comentários:

Sílvia Andreotti disse...

*morrendo de orgulho*
Obrigada por dizer o meu nome!!! Desejo que tenha MUITO sucesso!!!! Você merece!!!!!

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